domingo, 4 de abril de 2010

O espetáculo televisivo do cantor intenso

Foi o Gonzaguinha que nos chamou a atenção. Um cara que a vida inteira cantou a tragédia da vida urbana, o ensopadinho de pedra no almoço e jantar, o trem da alegria num mar de tristeza; acabou se entregando, intencionalmente ou não, ao espetáculo do cantor televisivo, sendo o autor de um dos clássicos do gênero: Sangrando
Eis o vídeo do próprio cantando e se entregando

Veja como a música perde o seu brilho com um cantor sem expressão:

Esse tipo de música, geralmente em tom menor e intensidade crescente(às vezes a melodia acompanha, como no caso acima), sempre carrega uma letra igualmente intensa, um refrão apoteótico e, via de regra, um cantor gesticulador(pulso firme) com expressões faciais bem definidas - quase sempre desamparadas, de força ou de choro- expressando a intensidade da música. Um espetáculo audiovisual por si só. Por tabela, viram sucesso do Karaokê.
Caetano, compositor matuto, abusava o recurso e entregava ao rei brejeiro Roberto Carlos. Dessa parceria sairam as famosas:

Que carregam várias semelhanças.

Outra parceria de sucesso é o fenomenal quarteto João Bosco, Aldir Blanc, César Camargo Mariano e Elis Regina; encarregados respectivamente pela melodia, letras, arranjo e interpretação. Eles chegaram ao ápice na minha opinião, principalmente por serem extremamente competentes no que se proporam a fazer individualmente, apresentando inclusive a unanimidade do canto interpretativo brasileiro(segundo o Maurício)
Eis as gêmeas:


Os dois últimos até adaptaram um samba do Ary Barroso para o formato:

Bota refrão apoteótico!

Nos EUA temos o clássico da exaustão auditiva:

Sem se esforçar você lembrará de milhões de outros exemplos.

Dá pra gente imaginar que esse tipo de música não teria muito sentido sem a televisão. Provavelmente ela veio da jazzificação e televisação da ópera, que presume-se ser o grande espetáculo audiovisual pré-televisão. Também que, sendo um tipo de música que segue um padrão estético bem claro, dificilmente os músicos que as criam não se valem do conhecimento do padrão para forjar um sentimento, não sem antes se valer de um bom cantor!

3 comentários:

Caio disse...

Aproveitando que na internet dá pra escrever qualquer merda

mauricio-caetano disse...

Ô beleza! é esse tipo de coisa que um blog que ta vindo ai vai precisar!

Arkdoken disse...

Pô, cara, Simone também foi legalzinha aí. Tá bem que o tratamento foi mais televisivo, só isso. O Gonzaga tava mais despojado.